Entre horários de aulas, turnos de trabalho, exames e noites mal dormidas, há cada vez mais estudantes portugueses a viver uma rotina dupla. O estatuto de trabalhador-estudante, criado para facilitar a conciliação entre ensino superior e vida profissional, tornou-se uma realidade indispensável num contexto marcado pelo aumento do custo de vida, pela pressão financeira e pela crescente necessidade de independência económica.


Em Portugal, mais de 41 mil estudantes do ensino superior eram trabalhadores-estudantes em 2023/2024, segundo dados da DGEEC, um número que reflete uma tendência em crescimento. Mas, apesar da proteção legal prevista no Código do Trabalho, muitos estudantes continuam a sentir que o sistema académico ainda não acompanha verdadeiramente as exigências desta realidade.
Benefícios e limitações do trabalhador-estudante
A ideia de que o trabalhador-estudante beneficia automaticamente de condições facilitadas está longe de corresponder totalmente à experiência de alguns alunos. Nas entrevistas realizadas, uma das críticas mais recorrentes prende-se precisamente com a perda da avaliação contínua em algumas instituições. Uma estudante afirma que os benefícios “são inferiores ao que seria de esperar”, explicando que os alunos ficam “excluídos da possibilidade de ter avaliação contínua” e obrigados a realizar “um exame escrito e outro oral a cada disciplina”. Esta perceção é reforçada por outra entrevistada, que admite nunca ter aderido formalmente ao estatuto porque “perderia o acesso à avaliação contínua”. Na prática, aquilo que deveria funcionar como um mecanismo de apoio acaba, para alguns estudantes, por representar um entrave académico.

Na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, o processo de adesão ao estatuto implica várias etapas administrativas. Segundo Fátima Mergulhão, secretária da licenciatura de Comunicação Social e Cultural da FCH, os estudantes devem apresentar “declaração da entidade empregadora” e “comprovativo de inscrição na Segurança Social”, sendo depois o pedido analisado pela coordenação do curso e aprovado pela direção. Apesar do processo formal, a responsável destaca que “90% dos alunos que requerem este estatuto conseguem concluir as avaliações com sucesso”. Ainda assim, a própria faculdade prevê uma condição específica para estes estudantes: a exclusão da avaliação contínua, sendo a avaliação feita apenas através de prova complementar escrita e oral.
“Ter tempo para estudar, descansar e ter vida social e familiar”
Carolina Colaço, estudante de Comunicação Social e Cultural
A conciliação entre trabalho e estudos surge como um dos maiores desafios emocionais e físicos da vida universitária contemporânea. “Ter tempo para estudar, descansar e ter vida social e familiar” é apontado como uma das maiores dificuldades por uma das entrevistadas, que descreve dias em que passava “14 ou 15 horas fora de casa” e tinha de repetir a rotina no dia seguinte “sem descansar tempo suficiente”. Mais do que falta de tempo, os testemunhos revelam desgaste psicológico, exaustão e uma constante sensação de sobrecarga. Outra estudante resume o principal desafio numa única palavra: “cansaço”.
Apesar disso, trabalhar enquanto se estuda também é visto como uma experiência de crescimento pessoal e autonomia financeira. Uma das entrevistadas descreve esta fase como “a experiência mais difícil e mais gratificante” da sua vida, acrescentando que “todos os momentos em que tive a sensação de dever cumprido compensaram todos os que pensei desistir”. A experiência profissional durante os estudos surge associada ao desenvolvimento de competências como organização, resiliência, gestão de tempo e maturidade. “Aprendi a gerir o tempo muito melhor” e “sinto-me mais ponderada nas decisões”, explica uma estudante, enquanto outra admite que a experiência a ajudou a desenvolver sobretudo “a nível de organização”.
Nova realidade dos estudantes portugueses
Dados da PORDATA mostram que o número de estudantes no ensino superior português tem vindo a crescer nas últimas décadas, acompanhando uma maior diversidade de perfis académicos e sociais. Esta transformação ajudou a tornar mais visível a realidade dos estudantes que conciliam aulas e trabalho, muitas vezes por necessidade económica. O aumento do custo de vida, sobretudo nas rendas, transportes e despesas universitárias, fez com que a experiência académica deixasse de estar associada exclusivamente à dedicação a tempo inteiro. Atualmente, para muitos jovens, frequentar a universidade implica também trabalhar para garantir estabilidade financeira, gerir horários exigentes e equilibrar responsabilidades profissionais com avaliações, trabalhos e estudo.

Curiosamente, vários estudantes afirmam sentir maior compreensão no trabalho do que no contexto académico. “Sinto mais compreensão no trabalho em comparação com o ambiente académico”, refere uma entrevistada, explicando que a empresa ajusta os horários às aulas e permite reduzir horas sem penalizações salariais. Outra estudante destaca que o empregador possibilita faltas no dia do exame e no dia anterior “sem desconto no ordenado”. Estes testemunhos mostram que, apesar das obrigações legais previstas no Código do Trabalho, algumas empresas parecem adaptar-se mais facilmente à realidade dos estudantes do que certas instituições de ensino superior.
Desafios invisíveis dos trabalhadores-estudantes
O estatuto de trabalhador-estudante continua, ainda assim, a ser visto como essencial. Não apenas como uma questão de direitos laborais ou académicos, mas como uma ferramenta de inclusão social. Para muitos estudantes, trabalhar não é uma escolha complementar: é a única forma de continuar a estudar. “Não iria ter maneira de pagar os estudos se não trabalhasse”, admite uma entrevistada. Num contexto económico cada vez mais exigente, o estatuto torna-se uma peça central para garantir o acesso e permanência no ensino superior, especialmente entre estudantes economicamente mais vulneráveis.

Mesmo entre críticas e limitações, os testemunhos demonstram que existe uma forte consciência da importância deste regime. O problema parece residir menos na existência do estatuto e mais na forma como é aplicado, já que as entrevistas apontam para a necessidade de maior flexibilidade académica, apoio psicológico, revisão dos modelos de avaliação e uma adaptação mais realista às necessidades dos estudantes atuais. Para quem vive diariamente entre aulas, trabalho e pouco descanso, conciliar tudo deixou de ser exceção e tornou-se rotina, uma realidade de sobrecarga constante que levanta também questões cada vez mais presentes no contexto universitário e profissional, nomeadamente o impacto do desgaste emocional e mental provocado pela dificuldade em equilibrar todas estas exigências.
Conteúdo produzido por Beatriz Jorge, Inês Silva, Maria André, Maria Cotter e Madalena Carvalho, no âmbito da disciplina Comunicação Digital da licenciatura em Comunicação Social e Cultural.